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Ainda sobre o debate Tamar-Matar: comentários sobre um comentário infeliz*

William Murat (http://contra-o-aborto.blogspot.com)

Passado já mais de 1 ano do célebre artigo do Dr. Cícero Harada, “O Projeto Matar e o Projeto Tamar: o Aborto” , ainda podemos ver as opiniões e comentários os mais absurdos sobre o texto. Não bastasse a socióloga Heleieth Saffioti e umas tantas advogadas de SP terem se mostrado incompetentes ao extremo para contra-argumentar de uma forma aceitável, podemos ver que estas não ficaram solitárias em suas medíocres tentativas de defender o indefensável.

Fazendo uma revisão na listagem de páginas que noticiaram o debate e que tenho armazenadas, pude colher um interessante comentário escrito pela Dra. Andréa Planas, que se descreve como “Diretora Centro de Estudos em Bioética e Direito SP”, escrito na área de comentários do site do Projeto Ghente, site que foi dos vários que publicaram os textos do debate iniciado a partir do artigo escrito pelo Dr. Cícero Harada.

O comentário da doutora segue em vermelho e pode ser lido no original, clicando-se aqui. Meus comentários vão em azul.

***

Realmente nós não somos tartarugas Doutor…Infelizmente!

Bem… Talvez a Dra. Planas necessite ler novamente o texto do Dr. Harada, pois em momento algum ele compara mulheres a tartarugas. Na verdade, a doutora nem precisa ler novamente o texto, pois é óbvio que ela o leu, mas faz questão de não entendê-lo. Poderia lê-lo milhares de vezes e ainda assim se faria de desentendida, pois é muito mais fácil jogar uma retórica vazia do que explicar o absurdo de viver em um país no qual tramita no parlamento um Projeto de Lei que quer liberar que fetos e embriões possam ser eliminados a qualquer momento, enquanto existem leis outras que preservam ovos de tartarugas.

Tartarugas se reproduzem por instinto, não vão necessitar de proteção, alimentação regrada, aconchego, um teto, trocas de fraldas,uma mãe, pai ou “alguém” que as cuide e guarde por no mínimo 16 anos até que estejam aptas a seguir em frente sós, mas fortes e independentes, pois foram desejadas e amadas nestes anos de apoio familiar.

Um “ser humano” não é mesmo uma tartaruguinha que nasce e já sai correndo para o mar pois sabe que disto depende sua sobrevivência.

O “ser humano bebê” nasce prematuro: sem dentes, sem poder andar, sem defesa alguma, dependente ao extremo de outro “ser humano”, que pode ser a mãe, pai ou qualquer pessoa que queira cuidá-lo pois ele necessitará de cuidados e mais cuidados por no mínimo 4 anos para “sobreviver”!

Pois é… Entre os seres humanos (sem aspas, doutora) não é apresentado um índice de mortalidade como entre as tartarugas marinhas, apenas 1 ou 2 conseguirão atingir a maturidade de cada 1000 nascidas. Por que este índice de mortalidade é tão alto? Exatamente porque não há a figura materna ou paterna no caso das tartarugas. Se houvesse, provavelmente não teríamos um Projeto Tamar aqui no Brasil, pois as tartaruguinhas teriam sua sobrevivência bem mais facilitada.

Um bebê não sai engatinhando da maternidade procurando abrigo na primeira casa que encontre, necessita de cuidados. Infelizmente, parece que existem pessoas que pensam que esta condição humana é pretexto para que uma mãe (e um pai) possa escolher entre dar o filho à luz ou jogá-lo na lixeira. Talvez para certo tipo de pessoas seria melhor se nós humanos pudéssemos jogar nossos filhos em uma praia e deixá-los seguirem com suas vidas.

Interessante a “sólida” argumentação da Dra. Planas: ela traz um dado da real condição humana como um fato para que uma mãe possa decidir se dará ou não seu filho à luz.

Costumo dizer que passamos nossa vida de mãe tentando manter nossos filhos VIVOS. E esta nossa missão é eterna.

Filhos, ao contrário das tartarugas, são uma responsabilidade eterna de quem os ama e cria.

É uma relação que só termina com a morte de um dos dois, do filho ou da mãe.

Um filho não planejado é primeiro rejeitado pela Mãe, ou pelo Pai (que geralmente some assustado pela responsabilidade dura que é criar verdadeiramente um filho, ou pior, para não pagar a conta emocional , física e financeira que surge com o filho) ou por ambos, e mais tarde será rejeitado pela sociedade.Assim surgem os meninos de rua.Centenas (milhares) de crianças no Brasil que antes de largarem as mamadeiras já se encontram usadas nos faróis ou preferem as ruas aos lares violentos onde nasceram.

Calma lá, doutora! Existem muitos filhos que a senhora chama de “não planejados” que não são rejeitados por seus pais. Filhos vêm ao mundo em circunstâncias as mais variadas. Existem aqueles que vêm ao mundo por chantagem emocional da mãe ou do pai; existem aqueles que chegam como temporões, uma agradável surpresa para um casal que já não mais esperava filhos; outros chegam após uma violência sexual, etc. Uns são rejeitados por seus pais, outros não. Sabe o que cada uma destas crianças tem em comum entre si, cara doutora? Todos são seres humanos (note bem, sem aspas), todos devem ter preservadas as suas vidas.

Saber se uma criança irá ou não terminar na ruas de nosso país, independentemente da situação em que venha à luz, é coisa que não cabe bem a uma advogada especular, a não ser que os livros de Direito sejam substituídos por bolas-de-cristal ou mapas-astrais ou similares.

Se não cuidamos dos “seres humanos VIVOS” vamos ser hipócritas de forçarmos uma mulher a ter um filho que ela não deseja alegando a defesa ao Direito à VIDA?! QUE VIDA SERÁ ESTA?!

Esta vida, doutora, será uma vida exatamente como a da senhora. Será uma vida que terá começo; terá seu meio, com tristezas e com alegrias; e terá seu fim naturalmente, desde que não existam aqueles que lhe queiram tirar este direito fundamental ao viver baseado em parâmetros fictícios que contam as semanas de uma gestação não para saber quantas semanas de vida tem um feto ou embrião, mas para saber até quando podem dar cabo daquela pequenina e frágil vida.

Quer dizer então, doutora, que se não cuidamos dos nossos “seres humanos VIVOS” (por que as aspas, doutora???) temos o direito de terminarmos com gestações, de abortar? É isto mesmo? Chegará o momento em que teremos o “direito” (note as aspas, doutora) de assassinar?

Aliás, quem são os tais “seres humanos VIVOS” (por que as aspas, doutora???) ? A senhora quer dizer que os vivos são os que estão fora do ventre da mãe? A senhora por acaso já viu uma gestação de um “ser humano MORTO” evoluir (atenção para as aspas, doutora)?

Vida sem amor, sem carinho, sem comida, sem um teto ao menos, sem perspectivas nenhuma de evolução, estudo,…. pois o Estado e a Sociedade se omite de ajudá-las após defenderem seu nascimento?!

Quer dizer então, doutora, que a medida para a senhora reconhecer se uma vida vale ou não a pena ser vivida é a quantidade de amor, de carinho? De comida também?? Perspectiva de estudo? Hummm… Será então que quem come mais pode se dizer mais vivo que um, digamos, faquir? Ou será que quem leu 1000 livros em sua vida podemos dizer que é mais vivo que quem não os leu? Música também vale? Se alguém gosta de música clássica, ele está mais ou menos vivo do que alguém que gosta de samba?

Sim, o Estado se omite em ajudá-las, a senhora está certíssima. Devemos então exigir que este mesmo Estado nos deixe matá-las? Mas não seria o mais lógico exigir que o Estado faça sua parte e ajude aqueles que necessitem? Não seria mais justo também, doutora? Ou seja, a doutora acusa o Estado de omissão – no que concordamos -, mas acha que o Estado não deve deixar de se omitir, desde que permita que um aborto seja feito? Interessante raciocínio…

Ser a “favor da vida” no papel é fácil! Eu assim também sou.

Que a senhora é favorável à vida apenas no papel já está mais do que claro…

Mas pegar cada criança que nasce e é abandonada ou sofre maltratos dos pais e parentes e levar para casa, assumir sua educação, dar-lhe carinho e aconchego verdadeiros, quantos fazem isto?!

Ué?? Mas não foi a senhora que logo atrás deixou de se importar com a omissão do Estado? Ou seja, a senhora não se importa com a omissão do Estado, desde que este libere o aborto, mas “passa pito” nos que não ajudam a exemplo do que faz o Estado?

Todos fazem campanha para que as mães não abortem, mas quantos as apoiam após o parto pelos primeiros meses e anos estressantes e doloridos pelos quais todas as MÃES passam. Quantos acompanham estas crianças até o ensino médio, oferecendo remédios, cadernos, livros, ou ao menos uma mesada simbólica para esta criança que seria abortada tivesse o mínimo de DIGNIDADE em sua VIDA!

Cara doutora, muitos fazem isto… Talvez a senhora não saiba ou nem queira saber. O Estado poderia também fazer melhor a sua parte, mas são discursos como este da senhora e de tantos outros “defensores” das mulheres, omitindo-se de cobrar que o Estado faça o que lhe é devido e preferindo esforçar-se muito mais para que o Estado libere o aborto do que para que este mesmo Estado dê condições a estas mulheres e homens (estes são os PAIS, doutora) para que criem seus filhos.

Por que “vida” até uma folha de árvore tem, mas uma vida DIGNA é o que diferencia os humanos dos animais.

Interessante a medida de dignidade de vida que a doutora tem: a vida é digna desde que esta siga os parâmetros da advogada… Cara doutora, a dignidade da vida humana tem início desde seu começo. Quando esta começa? Na concepção! Acha que não? Discorda? Então faça o favor de dizer em qual momento mágico o fruto da concepção ganha a vida.

Do jeito que vai este discurso, doutora, parece que a dignidade está ficando limitada aos que chegam à faculdade ou aos que comem iogurte toda semana.

A vida é digna em si mesma e o aborto é um atentado direto a esta dignidade!

Quando todos adotarmos cada criança indesejada, as cuidarmos por 16 anos e as provermos do mínimo que um ser humano necessita para ser chamado de SER humano, eu vou discutir com o Sr o direito da mulher decidir se tem ou não seu filho.

Sinceramente… Já tive contato com argumentos pró-aborto os mais estapafúrdios, mas isto de só se permitir discutir sobre o aborto a quem é pai ou mãe adotivo de uma criança indesejada foge completamente à normalidade.

Se eu quisesse também partir para uma retórica vazia como esta, eu poderia bem dizer: “só vou discutir o aborto com a senhora quando todas as mulheres que procuram esta hedionda prática realmente não tiverem condições de criar seus filhos”. Esta frase é tão vazia quanto a da doutora.

Cara doutora, o mínimo que um ser humano (finalmente a senhora escreveu isto sem aspas!!) necessita para ser chamado de ser humano é que sua vida não lhe seja tirada. É impressionante que existam aqueles que desejam exatamente que isto lhes seja negado.

Pois como é hoje só a vida da mulher gestante e de seu filho indesejado é destruída quando uma criança surge sem planejamento. A platéia só sabe julgar e condenar, mas agir e ajudar nunca.

Mais uma vez, doutora: o Estado poderia ser pressionado a fazer a sua parte, mas, infelizmente, existem aqueles que preferem lutar para que o aborto seja liberado. Agem muito, mas ajudam bem pouco…

Deus disse: Não julgareis e é isto que faço quando vejo o nosso país com uma taxa de 900 mil a HUM MILHÃO de abotamentos clandestinos por ano!

Hummm… Ok. O Deus Único também disse: “Não matarás”. Então, a não ser que alguém prove que o que está no ventre das mães está já morto, o aborto é sempre errado. Pega mal utilizar certas palavras da Bíblia para o que nos interessa e convenientemente esquecer de outras, não é mesmo?

E várias autoridades vêm pregar estas “verdades” como se abortamentos deste tipo já não fossem realidade no Brasil…

O resultado desta taxa horripilante de abortamentos são não só as pequenas vítimas que não chegam a nascer, mas filhas, mães e avós mortas, doentes, inférteis e outras seqüelas mais incomensuráveis pois existe um verdadeiro arsenal de acougueiros militando nesta área e contra eles o MP e o Judiciário nada faz. Mas contra as mulheres que abortam…haja militantes…

A solução para esta situação horripilante é acabar com esta horrível prática. É uma utopia? Pode ser… Mas prefiro ter esperança em uma utopia que procura preservar todas as vidas do que ser um conformista que busca o caminho que é mais fácil.

Sabe por que o MP e o Judiciário nada fazem? Porque não há quem denuncie os tais açougueiros (existem açougueiras também, doutora). Por que as inúmeras ONGs que cuidam dos “direitos reprodutivos” não denunciam os locais que fazem abortos clandestinos, onde tantas mulheres adquirem seqüenlas ou chegam a morrer? Por dois motivos: a) não querem que um “estabelecimento” destes seja fechado; b) se mais mulheres não morrerem, de que estas ONGs viverão, como sobreviverão seus discursos afinados?

“Haja militantes contra mulheres que abortam?” Primeiro, há militantes contra o aborto, e não contra mulheres que abortam. Segundo, a advogada deve estar brincando! Por acaso a doutora lê jornais? Revistas? Pode até mesmo ser uma revista feminina, de moda… Acaso a doutora já procurou os sites das ONGs de “direitos reprodutivos”? Já tentou saber a origem e quantidade do aporte financeiro de tais instituições? Já procurou saber a quantidade de acadêmicos que se dedicam à causa pró-aborto? Já procurou saber quando foi publicada na grande mídia a última reportagem pró-vida? É mais fácil mascarar a verdade, não é mesmo?

Há ainda aqueles que dizem: BEM FEITO que morreram ou adoeceram…Há realmente “gente”, que se auto intitula “ser humano” de todo tipo.

Ouso dizer que toda família brasileira tem uma mulher em seu seio que já fez aborto, mas a hipocrisia é a regra.

“O inferno são os outros”.

Não sou a favor do aborto, nem nunca serei.

Cara doutora, se a senhora não é contra o aborto, então é a favor. Simples assim. Como não existe meio-filho, também não existe meio-aborto.

Mas negar que ele já é um fato no Brasil , que mulheres “pobres” morrem todos os dias como conseqüência deles e tirar da mulher o direito de decidir sobre sua vida reprodutiva é, neste país injusto e cruel, uma injustiça maior ainda.

A violência também é um fato no Brasil e também causa inúmeras mortes diariamente. E aí, o que devemos fazer? Aceitar o fato e virar as costas e talvez solicitar ao Estado umas “clínicas de assalto” ou devemos lutar contra esta situação?

Doutora, a decisão da mulher sobre sua vida reprodutiva vai até o momento da concepção. A partir deste momento, havendo uma vida, a mãe de forma nenhuma tem o “direito” de dar cabo desta.

Injustiça, cara advogada, é uma criança morrer por vontade de sua mãe porque esta não quer perder o namorado, ou porque não pode perder o semestre na faculdade. Injustiça é um pai pressionar sua companheira para que ela aborte porque ele não quer arcar com suas responsabilidades. Injustiça é acharmos inúmeras ONGs que fazem lobby pelo aborto alegando que ajudam as mulheres pobres, mas quase não achamos ONGs que queiram ajudar as mesmas mulheres pobres que queiram ter seus filhos.

A liberação do aborto contribui em nada para a solução das injustiças, só as perpetua e agrava.

Repito: Um Estado e Sociedade omissos não têm o direito de defender o nascimento de um ser humano não desejado para depois deixá-lo abandonado à própria sorte.

Pois então que lutemos para que ninguém mais seja abandonado à própria sorte e não para que este mesmo Estado e esta mesma Sociedade possam lavar as mãos e se omitirem exatamente da mesma forma, só que agora com o aval daqueles que antes denunciavam a omissão.

Embora a Pastoral da Saúde e outras entidades façam seu trabalho muito bem, estas são gotas de bálsamo em um oceano de sofrimento e desespero.

Mais do que gotas de bálsamo, são exemplos a serem seguidos, inclusive pelo Estado. Quanto antes nos dermos conta disto, haverá menos sofrimento e desespero.

Obrigada

Andréa Planas

Diretora Centro de Estudos em Bioética e Direito SP

* Publicado originalmente no blog “Contra o aborto”.

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